segunda-feira, 30 de junho de 2008

Canto IX


A Ilha dos Amores é os canto IX e X de “Os Lusíadas”. Após Vasco da Gama conseguir permissão para retornar a Portugal, Vênus os conduz até a ilha dos Amores, onde prepara-lhes uma ilha maravilhosa na qual as mais belas ninfas esperarão por eles como forma de recompensá-los por todas as dificuldades enfrentadas. A ilha é descrita como o verdadeiro paraíso.

“De longe a ilha viram, fresca e bela,
Que Vênus pelas ondas lha levava
(Bem como o vento leva branca vela)
Pera onde a forte armada se enxergava;
Que, por que não passassem, sem que nela
Tomassem porto, como desejava,
Pêra onde as naus navegam, a movia
A Acidália*, que tudo, enfim, podia.” (52)


*Outro nome de Vênus, que desloca a ilha pelas águas, para que os portugueses a encontrem e então a imobiliza.

Percebendo que os portugueses estavam decididos a desembarcar, Vênus, em “uma enseada / curva e quieta, cuja branca areia / pintou de ruivas conchas”, imobiliza a ilha. Desembarcando, têm os navegadores a visão de um verdadeiro paraíso. As árvores, as frutas, as flores e a fauna, toda a natureza está em perfeita comunhão, em perfeita harmonia. A manifestação da Beleza.

“Nesta frescura tal desembarcaram
Já das naus os segundos argonautas,
Onde pela floresta se deixavam
Andar as belas deusas, como incautas
Algüas doces cítaras tocavam,
Algüas harpas e sonoras flautas;
Outras, cos arcos de ouro, se fingiam
Seguir os animais que não seguiam.” (64)

Os marinheiros enxergavam por entre os ramos das árvores as cores dos tecidos das vestes das ninfas, as quais deliberadamente vão se deixando alcançar. Outras são surpreendidas no banho e correm nuas por entre o mato, enquanto alguns jovens entram vestidos na água. Elas não fogem e deixam-se cair aos pés de seus perseguidores.


“Assim lho aconselhara a mestra experta*;
Que andassem pelos campos espalhadas;
Que, vista dos barões a presa incerta,
Se fizessem primeiro desejadas.
Algumas, que na forma descoberta
Do belo corpo estavam confiadas,
Posta a artificiosa fermosura,
Nuas lavar se deixam na água pura.” (65)

*Vênus

O encontro entre as ninfas e os navegantes estava selado. Em um jogo amoroso no qual os navegantes iniciaram a perseguição e as ninfas simulavam a fuga.
“Já não fugia a bela ninfa tanto,
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas que dizia.
Volvendo o rosto, já sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.” (82)


O relacionamento amoroso entre as ninfas e os portugueses não representa uma orgia desmedida. Era a concretização do amor, o momento de glória. Através do desejo, fruto do amor, preenche-se e purifica-se a alma.

“Oh, que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta!
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vênus com prazeres inflamava,
Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.” (83)

Esta era a recompensa que Vênus lhes preparara. A realização plena do amor, aquele que não pode ser visto como pecado, mas que não apagara o desejo da carne.

“Não eram senão prêmios que reparte,
Por feitos imortais e soberanos,
O mundo co’os barões que esforço e arte
Divinos os fizeram, sendo humanos;
Que Júpter, Mercúrio, Febo e Marte,
Enéias e Quirino e os dois tebanos*,
Ceres, Palas e Juno* com Diana,
Todos foram de fraca carne humana."


*Mercúrio é o mensageiro dos deuses, Quirino é Rômulo, um dos irmãos de Roma; os dois tebanos são Hércules e Baco.

*Ceres, deusa da agricultura; Palas Atena, filha de Zeus (entre os romanos, Minerva, filha de Júpter), deusa da razão e da sabedoria , protetora das artes; Juno, esposa de Júpter, protetora da mulher e do casamento.

Canto X

Ainda na ilha dos amores Tétis oferece um banquete aos portugueses. Logo depois, este leva Vasco da Gama para o alto de um monte, à medida que uma das ninfas profetisa novos feitos heróicos dos portugueses.

“Faz-te mercê, barão, a Sapiência
Suprema de, co’os olhos corporais,
Veres o que não pode a vã ciência
Dos errados e míseros mortais.
Sigue*-me firme e forte, com prudência,
Por este monte espesso, tu co’os mais.” (76)

*O verbo seguir, no imperativo: segue.

A caminho sem muita andança, Tétis oferece a Vasco da Gama um modelo do Universo em miniatura. O herói está avistando...

"Vês aqui a grande máquina do mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assim foi do Saber, alto e profundo,
Que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfície tão limada,
É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende,
Que a tanto o engenho humano não se estende.” (80)

Vasco da Gama contemplara o que só aos deuses era permitido vislumbrar. A Máquina do Mundo simboliza a vitória do conhecimento racional, do pensamento ordenado frente ao mundo desarmônico e confuso. É da feição do homem, através de suas atividades, estabelecer uma visão ordenada das coisas auto-visualizadas.

Desta forma os portugueses alcançaram a divindade, devido que seguiram a ordem correta exercidas por suas ações. Sendo assim os Deuses reconheceram seus patamares espirituais elevados.

Aproximemos também a Máquina do Mundo da temática amorosa. E lembremos do Amor como sendo força com capacidade corretora para os desacertos do mundo. Os Nautas lusitanos, a partir do momento que desembarcaram na Ilha dos Amores já estavam muito além do mundo desarmônico. Foram guiados por Tétis com intenção de vislumbrar a Máquina do mundo, sendo guiados pela força do amor. Podemos então concluir que para um humano tornar-se divino, tem que haver força do heroísmo pela força do amor.